Cartas na Mesa: Tarô Virtual

Artigos, programação e workshops do Site Tarô Virtual - www.kelmamazziero.com.br

Arquivo de Setembro de 2007

As ironias da vida no Tarô

Trabalhar com Tarô é um desafio constante.
Apesar de muitas pessoas acharem que um tarólogo “decora” as cartas e sai falando as mesmas coisas, a realidade está bem longe disso. Bem longe mesmo. Cada jogo, cada pessoa tem diferença. E, apesar de usar as mesmas cartas é possível -com ajuda do raciocínio simbólico- perceber cada distinção que há entre uma pessoa e outra.
Isso também acontece com alunos. Cada aula é diferente, distinta, única. Parece frase de boteco, mas não é.
Digo isso porque recebo muitos e-mails por dia. E acho interessante que as pessoas tratem os cursos como se fossem pacotes fechados, coisas prontas. Não são! E é complicado ter que relatar tudo isso em todos os e-mails, são muitas mensagens e muitos pedidos diferentes. Sendo assim, achei de bom tom escrever diretamente no Blog, já “popularizo” um pouco mais essa questão.
Percebo pelas mensagens que recebo, a inexatidão dos desejos e solicitações de algumas pessoas. E fico preocupada.
Hoje em dia, todo mundo valoriza coisas erradas, conceitos equivocados. As pessoas querem ter certeza de que não vão “jogar dinheiro fora”. E eu rio, ao pensar nessa situação. Sabem por que? Porque certeza é algo muito relativo. Vejo que as bases de julgamento são as mais estranhas: se já escrevi livros, se já dei aula fora do Brasil, se já fiz curso no exterior, se já fui em programa de TV, se escrevo coluna em jornal, ou se participo de alguma comunidade do Orkut ou de algum grupo de discussão. Continuo rindo. E explico: nada contra quem faz isso. Por favor, não confundam a mensagem do texto, real, com mera intriga. Sei que cada um tem seu caminho e sua forma de trabalhar. Respeito. Mas me pergunto até quando o ser humano vai usar como base esse tipo de realização! Que segurança isso dá para uma pessoa? Quantos livros mal escritos já vimos? Quantos programas de tv que denigrem o Tarô e o profissional já presenciamos? Quantos debates tristes entre membros vaidosos de comunidades e grupos já tivemos que, vergonhosamente, acompanhar? Desde quando milhas contam como qualidade de ensino? Continuo rindo, já com certo ar de desânimo. Que parâmetros mais tortos, para se procurar qualidade, num assunto que não combina com essa aura acadêmica! E mesmo que combine, será que o comprometimento do profissional deve ser menor do que as entrevistas que deu? Tsc, tsc, tsc.
Com tudo isso, continuo recebendo e-mails. Com solicitações. Pessoas reclamando que só trabalho virtualmente, que querem me ver, que querem jogar presencialmente, comigo ali na frente delas. Ou que eu mininistre cursos, elas sentem falta do “olho-no-olho”. Começo a rir. Novamente. Sabem por que? Porque pedir, gente, é uma coisa fácil. Se adequar às situações se torna cada vez mais impossível. A data nunca está boa. O preço está salgado (puxa, fulano de tal cobra muito menos que você e ainda dá brinde!!!). O local é distante. Ou pior, escrevem, pedem (às vezes infernizam) e somem. Afinal, não sabem que são considerados importantes, acham que pedir e sair andando é comum. Nem eles mesmos lembram que são importantes!!! É normal. Afinal, estamos à era na qual nem falamos mais ao telefone, pra tudo tem um Menu que nos faz interagir com uma secretária eletrônica! Que diferença poderíamos fazer nesse mundo?
Olhem…é de matar. É de matar. Pedidos, solicitações, sugestões. Nada disso falta na vida de um tarólogo.
Adequação, confiança, dedicação…faltam. E muito.
É por isso que comecei e termino o artigo falando da mesma coisa: a vida do tarólogo é um desafio constante. Ele atende pedidos, arruma formas de oferecer o que lhe é pedido, tenta passar o máximo de conforto e confiança. Claro, ninguém é santo, nem perfeito (acho eu…rs). Mas se pra ser respeitada eu precisar escrever livro, brigar em grupos virtuais, falar o que penso e acho como se fosse a coisa mais importante do mundo em comunidades virtuais, atender a todas essas exigências para mostrar qualidade, terei problemas. Não acredito nesse sistema, realmente não seria natural em mim simplesmente me render porque “é assim que funciona”.
Continuo aqui, no meu Caminho. Sei o que faço aqui, o que posso oferecer. Já fui na televisão, já escrevi em revistas, já fiz muitas coisas na vida, e só o que pude ver foi exploração de algo que pra mim é sagrado. Não porque eu coloque meu Tarô num altar. Mas porque o Tarô é meu ganha-pão, é meu sustento, é sagrado. E já diria meu irmão mais velho: O trabalho honra e dignifica o homem.
Uma boa semana a todos;
Kelma Mazziero

4 comentários »

Os Limites de Cada Um

Hoje vim falar sobre limites.
No dia 03/09 Saturno saiu do signo de Leão e entrou em Virgem. Isso parece grego? O que tem isso a ver com Tarô? Pois é. Tenho cá comigo uma teoria, de que tudo o que afeta a gente - e consequentemente as pessoas - é relevante. Sendo assim, houve uma mudança significativa astrológica e pude perceber que afetou muita gente. Tanto que, na mensagem da News, achei conveniente aproveitar a vibração do “CARRO” e dar uma força pra todos. Essa mudança de Saturno, que ficou mais de 2 anos em Leão e agora entrou em Virgem, gera mesmo alguns desconfortos, afinal Saturno representa muitas coisas, mas dentre elas, a que mais incomoda as pessoas é a necessidade de estabelecer “limites”. Sendo assim, imagino que algumas pessoas tenham tido dias “agitados”. Para quem não teve, ótimo, fica a mensagem de garra, do mesmo jeito, pra continuarem sua caminhada, ok?

Vamos fazer também um Curso Básico de Tarô, Intensivo. Eu e o Gustavo Pessoa, 2 tarólogos ministrando um Curso MUITO importante, que é o Curso Básico. Um começo ruim, pode marcar uma trajetória no Tarô também ruim. Sabemos que o Curso Básico é fundamental para quem deseja aprender a ler as cartas e pra quem já lê mas quer rever, reciclar. Por isso, Gustavo e eu preparamos um material fantástico. Não ensinamos ninguém a fazer chover, nem a ver o futuro daqui 30 anos. Sei que é muito triste falar sobre a realidade, mas preciso chamar a atenção de meus assinantes para o fato de que eu não sou adepta dos fogos de artifício esotéricos. Portanto, o que queremos é ensinar um Curso Básico com seriedade. Não vamos falar de outro assunto, a não ser Tarô. Porque quem quer aprender Tarô não vai entender a razão de estudar outra coisa, não é mesmo??? E não vamos ensinar ninguém a voar, nem tirar coelho da cartola!!! Infelizmente. Vamos, sim, abordar a origem e surgimento das cartas, como isso aconteceu, pra que servem as cartas, porque todo mundo tenta aliar o estudo do Tarô com outros segmentos, porque se fala tanto de Jung e Tarô…e depois disso, entraremos na simbologia, vamos ver carta por carta e tentar ensinar como PENSAR o Tarô, não decorar. E claro, ensinaremos alguns jogos para os alunos praticarem. Qualquer Tarô, que tenha 78 cartas será compreendido.
Você pode estar pensando: ” Poxa, mas ela começou o texto falando de astrologia e disse que não mistura as bolas?”
E eu te respondo: ” Respeito tudo aquilo que guia, ajuda, esclarece o ser humano. Mas não desvalorizo o que conheço e ensino utilizando outras ferramentas. Cada um que seja responsável pelo que ensina. E que seja humilde, para ensinar APENAS o que sabe.”

Como vocês viram, também fui afetada pela mudança de Saturno…acho que senti necessidade também de esclarecer limites…hehehehe. Mas sou um pouco radical quando o assunto é ensinar. Não abro mão da Verdade.

http://www.kelmamazziero.com.br/km/portal/newsletter/index.htm

Abraços a todos;

Kelma Mazziero

Sem comentários »

A Morada do Império: A Casa Sagrada do Imperador

Estava passeando pela internet quando me deparei com um conceito muito interessante: a antroposofia. Nunca tinha ouvido essa palavra antes, e suspeito que você provavelmente também não saiba precisamente o que significa. Como todo cidadão letrado faz, recorri ao dicionário: antroposofia é um substantivo aplicável a qualquer doutrina que fala sobre a espiritualidade humana. Foi também uma teoria de Rudolf Steiner, que acredita poder unir à espiritualidade o mesmo método das ciências naturais.
É curiosa essa definição. A palavra antroposofia parece então substituir a palavra espiritualidade, e ganha de brinde a palavra doutrina. Doutrina é apenas um conjunto de preceitos sobre determinada coisa que necessita ser ensinado. A idéia de que uma doutrina precisa ser ensinada realmente me incomoda, porque diz que ela é algo tão fundamental que todos devem aprender. Fundamental, como se sabe, compõe a palavra fundamentalista, que leva também a associações diretas com dogma, intolerância, inflexibilidade e eventualmente terrorismo.
Por que será, então, que a morada da espiritualidade virou a antroposofia?
A casa é algo muito singular. O filósofo francês Gaston Bachelard levou um livro inteiro para ousar o empreendimento de compreensão da casa. A casa é sagrada, porque é o nosso canto, aonde moramos, nos refugiamos e nos encontramos conosco mesmos. É na casa que podemos ser quem somos, e na casa nos livramos de todos aqueles pesos imensos que o mundo externo nos coloca. É na casa que tentamos sair deste sistema louco que transforma tudo em produto e correria, produtividade e lucro. Tentamos voltar a idéia básica de família, de afeto. Enfim, é na casa que mora a nossa tentativa de reconexão com a realidade mais bela do mundo. É a reconexão com as coisas mais básicas, mais simples, e mais verdadeiras. A casa é, no fundo, apenas uma cabana fincada na terra, profundamente em contato com a natureza e a vida.
A palavra antroposofia me remete a outra coisa. Mansões em estilo neoclássico, ostentadoras de um modo de ser preocupado apenas com as coisas em quantidade do que em qualidade. Bauman, em suas teorias sobre a sociedade líquida, já diz que hoje precisamos de números: os números determinam o valor. Quantos livros você leu? Quantas palestras você ministrou? Quantos países já visitou? Você vale a quantidade de coisas que já fez ou tentou, mesmo que você ainda não tenha descoberto o que você é. É uma distância enorme entre este pensamento e a casa simples.
A ImperatrizO ImperadorO Imperador e a Imperatriz contém neles mesmas imagens da casa. Na maioria das imagens das cartas imperiais, vemos uma paisagem tranquila, e muitos imperadores e imperatriz são mais que um: o imperador por vezes aparece cercado de crianças ou pessoas, e a imperatriz comumente está grávida. Existe uma atmosfera de cores vivas, e há sempre o trono, um símbolo de poder, mas também de arte humana e de casa: em que casa não há um assento? Seja cama ou cadeira, banco ou uma escada pequena aberta na área de serviço, sentamo-nos todos. Sentar e deitar são o que fazemos para descansar, não apenas para governar. E descansamos na simplicidade da casa, quando não precisamos mais fingir que somos tão complexos; porque, logicamente, se conseguimos ser tão complexos a ponto dos outros não nos entenderem, eles não podem nos medir ou nos julgar, e escapamos dessa chatice de termos valor. Não seremos menos nem mais, apenas chiques. Porque virou chique ser complexo.
Uma piada transversal se faz aqui: soubessem profundamente o que C. G. Jung postulou sobre os complexos, não achariam nem chique, nem complexo. O complexo é natural e parte da vida, e é realmente incompreensível. Mas se manter na incompreensão é inadequado, para usar o maior dos eufemismos.
Dê uma boa olhada em imagens ricas do Imperador e da Imperatriz e em suas cores, e em tudo que existe nelas. É um ambiente semi-urbano, seminatural. É uma imagem na qual existe algo criado pelo homem, e existe algo que sempre existiu, pertencente à natureza, tal como o homem também é. São imagens que invocam toda nossa capacidade de equilíbrio entre o pertencimento e o desprendimento, e a realidade que não precisamos de grandes mansões, hotéis, flats e tecnologias para alcançarmos o tão almejado reencontro com a natureza e a espiritualidade.
Se a Imperatriz e o Imperador falassem, eu duvido muito de que se chamariam de antroposóficos. E creio que ficariam bastante ofendidos se lhes dissessem que eles não possuem espiritualidade. Porque a espiritualidade habita o simples, a descomplexificação que traz a profundidade do ser. A espiritualidade está na vivência plena do ser humano e seu trono, sem precisar retirar o trono de seu chão de terra e dos campos verdes que o cercam. Nossa morada é simples, e espiritual.
Por fim: a espiritualidade não necessita das ciências naturais como moradas. Como Jung já disse, não é possível tentar investigar a psique individual como se ela fosse um objeto como nas ciências naturais. Ela não é. Quando estudamos a espiritualidade humana, bem como tudo aquilo que cerca o ser humano, é a psique estudando ela mesma. Nós estamos nos estudando. Devíamos nos contentar em ser tão pouco subjetivos quanto possíveis, porque imparcialmente objetivos nunca seremos, já dizia o psiquiatra suíço. Não precisamos fingir a complexidade do estudo para produzir estudo de qualidade. Não precisamos pretender que somos espiritualmente elevados para nos entregarmos a espiritualidade. Nós somos simples e complexos, e temos muitas moradas. Espero que todos possamos identificá-las e escolher aquelas que, em sua simplicidade, revela toda a profunda espiritualidade que habita cada ser.

Texto por: Gustavo Pessoa

2 comentários »

Próxima Página »