Arquivo de Junho de 2008
A estrutura-pronta de vitrine
Entramos na Semana regida pelo Imperador, a Carta IV, do Tarô.
Aqui vou destacar um dos vastos aspectos do Imperador -para seguir a linha da semana passada- sobre a paternidade. Da mesma forma que gerar para algumas mulheres se tornou sonho de consumo, para alguns homens a figura paternal representa vestir a “roupagem” de estrutura e estabilidade e ficar exposto como numa vitrine de loja. O pai deve ser bem-sucedido, pagar as contas ou ajudar nessa tarefa com assiduidade, dar bronca, mostrar aos filhos o que é ser um homem de sucesso, um homem bem-resolvido, um cara do bem. O detalhe é que essa imagem foi um tanto pasteurizada e aqueles que se sentem cumprindo esse papel acabam abafando completamente seus sentimentos.
Por conta dos infelizes rótulos populares (de quem dá carinho e sensibilidade aos filhos é a mãe) esses pais se tornam figuras disformes, parecem mais manequins de vitrine, que se matam para sustentar a casa e dar sua parte em dinheiro. Aqueles que não estão preparados para isso, simplesmente se ausentam usando qualquer argumento pronto que justifique sua distância, como por exemplo, de que foram antes rejeitados e por isso acham melhor não insistir nem lutar por quem não os ama (algum dia um filho deixaria de amar ou esperar um pai?). Outros, mais velhos (mas nem por isso mais sábios) se divorciam dos filhos ao se separarem da mãe. Tem, sim, uma pequena parte que mostra afeto, que brinca, que conversa sem dar sermão, que vê o filho como é, que aceita (principalmente) o que o filho mostra e constrói. Nem por isso pai é 100% aceitação. Só precisa desvincular seus fracassos e sucessos da projeção caricata que acaba fazendo em suas crias.
Semana passada recebi de um amigo um vídeo, desses que circula na internet, no qual contam a história de um pai que, ao saber que seu filho sofria de uma doença degenerativa e tinha o sonho de participar do Ironman (uma competição difícil de nado, corrida e ciclismo), não duvidou ao participar da prova levando seu filho com ele, em todas as etapas. Se realmente aconteceu, se é apelo da mídia, se é sensacionalismo, não sei. Sei sim, que ao assistir aquele pai correndo, nadando e pedalando sempre carregando seu filho consigo, me deparei com um fato estarrecedor: quantos pais se identificam com isso, quantos pais assistem e entendem perfeitamente o que o homem fez pelo filho, quantos pais fariam isso? Pois é, poucos. Muito poucos. Podem sentie e entender…mas fazer é outra etapa do amor. Eles sentem-se assim, mas nem sempre mostram-se esses heróis emocionais e guerreiros -que são aos olhos de suas eternas crianças- perdendo a chance de expor a si mesmos e ao Mundo todo o seu Universo rico de sentimentos e capacidades.
Vale ressaltar que isso não é uma crítica, e sim, um incentivo, a todos aqueles que sabem o que sentem mas por algum motivo não estão batalhando o quanto podem por alguém que os ama incondicionalmente. Aqui não falo de pessoas, mas sim, de padrões atrelados `as pessoas .
Da próxima vez que enfrentarem uma dificuldade desafiadora com seus filhos, se preocupem menos com o preço do Plano de Saúde (que deve ser pago mas não é só essa a parte que lhes cabe), e mostrem como superar uma dificuldade ao lado de quem se ama e confia. Deixem seu herói acontecer na vida de seu(s) filhos(s).
Boa Semana a Todos
Kelma Mazziero
Obs: Esse artigo fica em homenagem ao meu pai, que não vive mais na terra, mas certamente estava aqui dentro de mim enquanto escrevia.
Gerar é sonho de consumo?
Começamos novo ciclo com a Carta I, O Mago. Continuamos, semana passada, na Papisa. Hoje adentramos a Imperatriz.
A Carta, por si só, virou sonho de consumo. A maioria das mulheres olham pra Imperatriz com olhar brilhante, sonhador, desejoso. Isso porque a simbologia é nítida: uma mulher, em seu auge de beleza e fertilidade, com olhar pleno. Sentada num trono, confortável, segurando objetos de poder e expondo toda sua riqueza interior e exterior sem vergonha ou preocupação. Criativa, comunicativa, simpática, bem sucedida…o que chamamos hoje de “bem resolvida”. E grávida! Poxa, não é o máximo?
Nem tanto, caro leitor, nem tanto.
Dentre tantos conflitos da modernidade, vivemos um emergente e urgente, que se refere à maternidade. Não digo maternidade no desejo mas sim na prática. É delicadíssimo falar no assunto pois a oposição já me olha de esgueio, como quem diz “Ah, então filosofe, madame sabe-tudo!”. Pois é, tem assuntos que são terríveis de abordar, as pedras começam a fazer barulhinho nas mãos de quem escuta, sendo preparadas para serem atiradas na direção de quem se atreve a dizer o que pensa e vê. Mas não é lição de moral, não, é uma situação que inclusive eu vivo! Portanto, deixemos a defesa-agressiva de lado, pensemos e reflitamos: hoje em dia se tornou mais fácil fazer e gerar um filho, porém, nem tão simples criá-lo. Dá trabalho, ocupa tempo, omite partes da personalidade dos pais, rouba atenção, desgasta energia, mexe com a vida de forma irremediável. Não adianta vir com papo-cabeça de “padecer no paraíso” nem achar que dinheiro resolve tudo e elimina a dor de cabeça. A questão é que maternidade virou um conceito, uma grife, um status, um sonho de consumo. É comum ouvir uma mulher dizer “quero muito ter um filho, ser mãe”. Ótimo, e depois de ter o filho e se tornar mãe, qual é a pretensão? Eis o problema. Depois de “realizar o sonho” é preciso arcar com a obrigação e responsabilidade que ele requer. Obrigação, sim. Responsabilidade, claro. Não adianta colocar enfeite na realidade, porque se tornar mãe é uma opção que dura…para sempre. Nunca mais somos as mesmas pessoas. E quem tem medo disso que reveja esse “projeto” de vida que é, um dia, se tornar mãe.
Veja bem, eu não estou dando bronca em ninguém. Estou olhando pra Carta e falando dela. Você vê, na Imperatriz, medo de perder o namorado/marido? Você vê, na Imperatriz medo de fazer o papel que lhe cabe (esposa, mãe, mulher)? Você vê na Imperatriz algum indício de que vá deixar as responsabilidades para qualquer outra pessoa? Não. Ela está com a atitude perfeitamente clara em relação ao que faz e ao que deve fazer. Ela não pensa nos conceitos, não programa, não projeta nada…simplesmente faz o que é preciso. Nossa realidade atual nos faz, muitas vezes, achar que o dinheiro pode cobrir essa dificuldade que encontramos em sermos “Imperatrizes”, pagando a escola mais cara, a roupa de grife, o brinquedo da moda, o quarto desenhado e arquitetado com todos os detalhes, passeios e viagens enlatados, babás, empregadas, assistentes, computadores. Ufa, quanto aparato! E a mãe que não tem tudo isso se sente mal, ás vezes, por pensar que deveria ter mais condições (financeiras) para deixar seu filho feliz. É ou não é um sonho de consumo a longo prazo? É, sim. Infelizmente.
Não se cogita que este filho nem se ligou -ainda- na grife da roupa, na parede pintada do quarto, no preço da mensalidade da escola, nem diferenciou o Caribe de Maceió. Ele quer colo, amor, carinho, atenção. Doação. Não se paga nada para um filho, se doa.
Essa semana deixo vocês com meus profundos votos de reconciliação amorosa. Unam-se com seus filhos, com seus pais, com sua família. Tanto os laços internos quanto externos podem ser revistos e enriquecidos. Aliem o conceito ao sentido, façam da vontade um sacrifício, encontrem a verdadeira doação. Não haverá -garanto- nenhum desperdício. Tudo será aproveitado.
Excelente semana a Todos!
Abraços ![]()
Kelma
A vez das meninas!
Semana passada falamos um pouco dos meninos na carta do Mago. Hoje chegou a vez das meninas porque é a semana da Papisa. Não é preciso relacionar o Mago aos homens nem a Papisa às mulheres - oracularmente falando - mas foi um tema a mais sobre esses Arcanos para debatermos.
Sou meio taxada de defender os meninos. Nunca neguei minha simpatia por eles - já que tenho mais amigos homens do que mulheres - além de ser mãe de um menino e realmente achar que são um gênero descomplicado (isso me agrada muito). Vejo que desde pequenas as meninas criam grupinhos e situações de manipulação, às quais tenho (e sempre tive), pouquíssima paciência. Para o menino basta jogar o mesmo vídeo-game ou curtir o mesmo herói que já rola assunto e motivo pra correrem até a exaustão. Já as meninas têm todo um sistema de regras para que a novata seja aceita e avaliada, além de (claro!) ela ter que provar algum tipo de controle ou domínio sobre alguma situação/pessoa. Não adiante saber jogar vídeo-game, chutar bola ou correr rápido para uma garota. Tem que assistir a novela bem açucarada e cheia de elementos de intriga, se vestir na moda, não se inibir perante as demais e -mesmo assim- ela pode não ser aceita totalmente.
Para ver como funciona isso na sociedade basta transferir esse esquema para os adolescentes e, mais tarde, para os adultos. Fica óbvia a razão pela qual os meninos parecem descomplicados e menos programados. Não é preferência, é pura interação.
Sendo assim, a Papisa tem um pouco desses aspectos, que citei das meninas. Pensadora, observadora, cheia de regras, julga e tira conclusões a partir da observação realizada em silêncio. Não permite muito erro nas outras pessoas porque em si mesma a perfeição é o lema. Não se expõe, justamente porque prefere que todos à sua volta mostrem tudo, antes de dizer ou expressar o que pensa. Sabe jogar de forma silenciosa como ninguém. Não tem pressa para amadurecer os processos e ter todos os elementos que precisa à mão. Você deve estar pensando: “Credo, então a Papisa é uma Carta ruim e as mulheres são ruins!”. Não, vamos tentar sair desse pensamento antiquado, por favor! O fato é que a Papisa representa continuidade, por isso, ela tem que pensar, tem que entender, tem que se preservar. É a natureza dela. Analise: a mulher quer entender como é amada, perceber nas atitudes do homem esse amor, sentir veracidade, pensar em quem ama. É reflexão pura!
Assim como no homem a iniciativa é natural, na mulher a reflexão também é essencial.
Infelizmente, hoje temos um sério problema: a inversão dos valores. Como disse na semana passada os meninos ficaram mais “Papisa” e as mulheres ficaram mais “Magos”. Então é normal ver homens passivos e mulheres ativas. Porém, no dia-a-dia, isso é complicado porque não é o que a natureza pede.
Veja que coisa interessante: há algum tempo vi uma chamada de matéria na internet e fui ler. Fiquei devastada. A matéria tinha um título - por si só - triste: Homens Traçam o Perfil da Mulher Ideal. Cada dia mais vejo esse tipo de artigo e de revistas que anunciam assuntos do gênero de modo distorcido, reforçando que, naturalmente não temos o que é preciso.
Bem, esse artigo diz uma série de coisas inúteis, mas se tivesse que resumir para poupar você de ler, diria que o “ideal de mulher” é: bonita (e aqui sabemos que atualmente a beleza inclui magreza, silicone, progressiva, pés e mãos impecáveis, roupa da moda e mais um monte de ítens caros e trabalhosos)+ inteligente (como se toda mulher já não o fosse) + carinhosa (aqui cabe perguntar se carinho é com a mão que a gente deve fazer ou se é falar feito neném mesmo sabendo que o “dito cujo” está varando a madrugada na bebedeira) + independente (vale de novo perguntar se isso indica que devemos sustentar os homens ou simplesmente não precisar pedir o dinheiro do leite das crianças) + amiga (escuta: amiga normalmente não é atraente, porque se fosse já tinha sido “traçada”, não é?) + companheira (aqui cabe ver o bendito futebol junto ou sair de perto quando começou o jogo?) + atualizada (o que seria atualização? O novo look da Victoria Beckham ou o valor das ações no mercado?) + simpática (isso é blefe, porque normalmente a mulher que é conhecida como “gente fina” é tida como feia pela turma) + meiga ( falar feito neném de novo?)…é muita coisa. Tem até alguns que pediram traços físicos na mulher ideal!!! Socorro.
O fato é que por essas características percebemos que nem os homens sabem o que querem, nem as mulheres sabem o que eles dizem.
Sejamos sinceros, todos, por favor! Quando a gente gosta… a gente gosta. Clichê, eu sei, mas é a verdade. Não tem requisitos pra gostar porque ninguém manda no sentimento legítimo. E, desde que conheço os homens (que, em sua maioria, continuo gostando de interagir) o mais legal deles é a sustentabilidade e a ausência de complexidade: quando eles gostam, ligam. Quando não gostam, não ligam. Se começam a exigir cor de esmalte, palpitar na cor do cabelo da parceira, competir hidratante… começam a ficar chatos. E, das mulheres, o que sempre foi imperdível esteve ligado à autenticidade, força de vontade, resistência e nutrição (não para emagrecer, mas sim, pelo desejo natural de nutrir quem ama). Quando começam a tentar virar essas “manequins melhoradas de mamãe” que os homens exigem, também ficam chatas.
Portanto, depois desse imenso discurso da semana, deixo aqui a todas (TODAS) as mulheres meu intento: “Sejam vocês. Não tentem ser mais nada além do que já são. A gente quer amor de verdade e não chegar perto da estatística de preferência. Não comprem mais rótulo. Não se deixem escravizar pelo padrão imposto pois, ganhamos o direito de votar e trabalhar, mas agora não temos o direito de ter celulite! Não comprem mais o produto da mulher ideal. Vocês já são ideais.”
Desculpem a prolixidade. Eu sou menina, oras bolas!
Boa Semana ![]()
Kelma Mazziero
Tudo começa com iniciativa
Entramos num ciclo novo - pois essa Semana é representada pelo Mago - recomeçando e abrindo novas possibilidades.
Tudo o que precisava ser feito antes da transição já passou… agora é olhar pra frente!
Semana passada renovamos os votos de vivermos com mais ousadia e coragem, já que não temos traçado um Destino certo, sempre devendo resgatar a vontade de viver.Agora, hora de colocar a mão na massa, abusar dos atributos do Mago (que é a Carta I), se abrir para o novo e planejar, visualizar com garra e vigor o futuro, investir.
Essa carta é muito associada ao Masculino que age, se movimenta, busca, aspira. De uma forma interessante, esses aspectos são também associados ao homem (o gênero masculino mesmo). Porém é curioso notar que, a cada dia que passa, eles (os homens) parecem menos masculinos. Porque será? Vemos homens mais passivos (e menos ativos), mais receptivos (e menos doadores), mais arredios (e menos impulsivos), mais calados (muito menos comunicativos), assustados (pouco atirados), acomodados ( quase nada conquistadores), inseguros (aspiram cada vez menos). Poderia dar aqui uma lista de atributos que percebemos escorrer das mãos dos homens, diariamente, nos deixando perplexas por precisarmos (e esperarmos) outra postura deles. Cadê essa resposta, meu Deus? Digo pra vocês: está na Iniciativa. Sem iniciativa, o homem murcha.
Quero deixar claro aqui : não vou “culpar as mulheres” por isso. Seria um pouco superficial entrar nesse tipo de debate. O que mais vejo em meu trabalho são mulheres perdidas porque não sabem como agir com os homens. Eles estão silenciosos, não usam de franqueza, se escondem, somem, não se posicionam, esperam que a mulher resolva tudo, perderam o desejo de conquista e principalmente o instinto protetor (aquilo que a maioria das mulheres espera e quer de um companheiro).
Vou aqui fazer o papel de advogada do Diabo: será que a gente pode fazer alguma coisa em relação à isso? Novamente ressalto que não estou culpando as mulheres por isso, mas ficarmos discutindo o sexo dos anjos também não leva a nada, não é? Queremos tanto que os homens mudem que agora poderemos ter perdido o senso de direção e não sabermos mais o que realmente queremos: se são os homens em sua natureza mais verdadeira ou se são os homens “civilizados”, polidos, que chegam até a competir o espelho com a gente e se preocupam mais com a cor do nosso esmalte do que nós próprias.
Hoje não vou dar a resposta. Só darei o “start”: o segredo está na Iniciativa. O resto, vocês poderão me dizer, e, principalmente pensarem consigo mesmas sobre essas questões - tão atuais mas sem respostas produtivas - para enfim podermos resgatar um de nossos papéis enquanto mulheres: gerarmos uma nova energia (ou um novo padrão, como preferirem chamar) que possa proporcionar um equilíbrio na interação problemática e das mais maravilhosas que há entre seres humanos adultos…a relação homem X mulher.
Tenham uma boa semana ![]()
Abraços
Kelma
O que você faria?
Tem uma música que ouço há muitos anos e não me canso dela - pela intensidade de palavras e mensagens - composta por Paulinho Moska. Evito dar opiniões muito pessoais sobre trabalhos artísticos pois tudo se torna relativo num tempo em que as pessoas ouvem Axé e choram de emoção. Sendo assim, costumo ficar na minha. Porém, estamos na Semana do Louco! Não teria a menor graça escrever sobre ele sem dar um chute pro alto e simplesmente rir dos resultados. É a “cara do Louco” fazer isso, não é?
Quero deixar uma reflexão simples, mais escancarada essa Semana, usando a representação do único Arcano Sem Número do Tarô. Questionar tudo. Tudo de uma vez. Como disse no início, Paulinho Moska compôs e interpretou uma canção chamada O Último Dia. Ela resume uma frase única: “O que você faria se só te restasse um dia? Se o Mundo fosse acabar, me diz o que você faria?”. Não há como ouvir os exemplos que ele dá, ao longo da música, e deixar de rir ou pensar. Afinal, estamos vivendo pra quê? Será mesmo tão importante saber quando vou ganhar mais dinheiro, que dia vou ter sucesso profissional, como fulano vai reconhecer que sou melhor que ele, de que forma terei certeza de que meu parceiro me ama, porque demora tanto para ser reconhecido e conquistar meu merecido lugar? Será que tudo isso importa tanto? E se só restasse apenas este dia, qual dessas dúvidas existenciais sobraria em sua cabeça?
Basta pensar com vontade, responder de verdade e você verá que já é feliz… só não se lembrava disso!
Tenham uma ótima semana. Vivam como se restasse apenas um dia.
Grande Abraço ![]()
Kelma Mazziero