Arquivo de Abril de 2009
A posse antecede a perda
Essa semana temos a representação do 4 de Ouros, uma carta que remete à posse, apego e retenção. Pode parecer simples analisá-la num jogo mas não é. Quando nos comprometemos a jogar Tarô para esclarecer situações e aconselhar, algumas vezes esquecemos que estamos falando de nós mesmos durante a leitura. Por mais estranho que possa parecer, o aconselhamento acaba se tornando o caminho mais curto para fugir de algumas dificuldades pessoais, indicando caminhos e soluções para os outros sem, contudo, olharmos pra nossa própria vida e ver se estamos conseguindo fazer o que tanto dizemos que outros devem fazer. Sem entender a dor do outro não seremos, nunca, convincentes ou tolerantes na medida correta.
Citei isso porque algumas cartas provocam naturalmente essa reação. Por exemplo: o 4 de Ouros fala de posse e, podemos ser mestres ao falar sobre isso, mas será que em nossas vidas esse assunto é bem trabalhado? Não basta ver e apontar a posse desses pais e mães que agora resolveram matar filhos e a si próprios para não permitirem que o ex-cônjuge leve a criança pra casa. É óbvio que essa distorção atual que vivemos faz mal e gera ainda mais violência. Mas, e as pequenas coisas, que acreditamos possuir e não conseguimos libertar? Ler e analisar uma carta que mostra o quanto costumamos reter aquilo que conquistamos é muito difícil.
Vou dar outro exemplo: um belo dia acordei feliz da vida porque havia conseguido meu primeiro emprego. Naquele momento me sentia livre, me sentia feliz, não tinha nada a perder. Antes daquele emprego eu era mais uma, sem renda, sem status, sem perspectiva (só havia sonho dentro de mim). Com o tempo fui atingida pelo cansaço do trabalho, o dia-a-dia maçante, as fofocas, intrigas de colegas e novas contas que havia adquirido (já que teria um salário fixo). Conforme passava o tempo, mais me envolvia com aquilo tudo, uma nova realidade que, no começo era um horizonte colorido, mas no momento parecia um fardo. Apesar da sobrecarga, do stress, das falcatruas, dos erros, consegui fazer um nome, manter-me materialmente, ter dinheiro para me vestir, alimentar e até viajar eventualmente. Muita coisa mudou. Mudou a ponto de eu olhar pra minha própria vida e perceber que tinha me tornado pura saudade. Saudade de passear, saudade de relaxar, de tomar um banho sem hora pra acabar, comer sem me preocupar com o nome do restaurante, sair de pijama na rua pra comprar pão na hora do almoço…não estava mais feliz nem contente. Tudo o que era expansão havia se tornado obrigação e posse. Já não ganhava mais o suficiente, não ficava feliz ao comprar algo pra mim (apenas aqueles minutinhos de conquista que não duram nem meio período) e me sentia só.
Atire a primeira pedra quem nunca se pegou agarrado ao que conquistou. Isso é comum, é a lei do mundão moderno, é o passaporte pra perder e ter que começar tudo de novo (não porque quer mas porque tem que aprender a ser gente de novo). E é por isso que o 4 de Ouros parece fácil quando vira lição pro outro. Mas, quando olhamos pra dentro de nossas vidas, veremos (enquanto aconselhamos quem nos procura) que também temos muitos 4 de Ouros espalhados dentro de nós e do nosso cotidiano.
Vale à pena pensar em libertar os apegos que nos amarram. Tudo o que precisa ser agarrado merece ser solto. Até quando o preso da história é a gente mesmo. Esta Semana não se agarre a mais nada, liberte o que tem medo de perder( ou pelo menos tente com coisas que não parecem tão essenciais). Não é assim que se vive nem é a assim, retendo, que se garante alegria duradoura. O limite e o respeito valem em todas as direções, inclusive quando significa medo de sofrer por algo que já dói e não olhamos com a devida atenção. Acreditem, libertar vale à pena.
Boa Semana a todos ![]()
Abraços
Kelma
(Imagem: Tarot Of Dreams)
Construir é muito mais que realizar
Esta é a Semana do 3 de Ouros. Como me é de hábito reforçar, o naipe de Ouros remete ao elemento Terra, tendo sempre como pano de fundo aspectos sólidos, materiais, reais, verdadeiros e nem por isso insensíveis. O número 3 trata de expansão, desenvolvimento, fertilidade, criatividade, crescimento. Associando um elemento de solidez com um número de desenvoltura podemos perceber que o 3 de Ouros trata da construção.
Inadvertidamente pode se pensar que na construção a consequência natural é obter realização. Porém basta pensar de uma forma bem simples pra entender que não funciona assim. Quantas construções páram pela metade e perdem vida? Muitas. E por que isso acontece? Devido ao fato de que a idéia de construir já dá a entender a finalização da mesma. Ou seja, quando imaginamos algo que será construído já imaginamos aquilo pronto. E é aí que mora o perigo… porque a construção é um movimento concreto, que requer andamento para chegar à seu produto final, caso contrário perece.
Assim acontece com aquela casa que resolvemos construir achando que ficaria igual à que vimos na revista, mas não deu pra terminar porque ficou cara demais, parando a obra no meio. É assim também com uma relação de amor que começou cheia de potencial e sentimento mas com o tempo não solidificou, requerendo manutenção e superação de crises, se deixando levar pelo tempo tornando tudo entendiante. É assim com uma amizade que não foi cultivada e ficou apenas na diversão gerando poucas raízes e não aguentando as adversidades que deveria atravessar ao longo do tempo. É assim com tudo. Qualquer coisa que começa a ser construída e não mantém uma alta dose de empenho, dedicação, solidez, trabalho árduo e fôlego pode acabar abandonada. Meio construída. Meio certa. Meio legal. Meio estranha.
Por isso existe o 3 de Ouros. Para mostrar que ali tem construtividade, empenho, força, trabalho mas precisa de movimento constante, desenvolvimento e garra para que faça sentido e finalize o que se espera. Caso contrário será o eterno potencial que não solidifica nem desabrocha. É para isso que serve a construção…para trabalhar e não apenas para se tornar a chance de realizar, sem antes, fazer o que for preciso a fim de usufruir do processo e conseguir alcançar o produto - esperado - final!
Tenham uma ótima semana: de trabalho, de empenho, de dedicação e construção a todo vapor!
Abraços ![]()
Kelma Mazziero
(Imagem: Legacy Divine Tarot)
A determinação que faz a diferença
Dando sequência às cartas numeradas entramos na Semana representada pelo 2 de Ouros, permeada pela objetividade, praticidade, clareza e concretude. É de hábito analisarmos as cartas do naipe de Ouros de modo semelhante, resumindo quase todas a um ou outro significado, associando sempre à materialização. Contudo insisto no ponto de que as pessoas deturpam sentidos e significados baseando tudo em seus próprios conceitos e valores. Como o naipe de Ouros é a representação do elemento Terra (dentre outras características) o mais simples é associar terra - matéria - realidade - conquista - resolução - sucesso. Mas nem tudo funciona assim.
Em nossa mente, muitas vezes, tirar conclusões simplistas é normal (inclusive para superar logo o assunto em questão) passando para a próxima preocupação a ser solucionada. Sendo assim, quando sai Ouros num jogo de Tarô, acontece muitas vezes de se ouvir: ” Ah, mas é Ouros, vai dar certo no final”. Não é bem isso. No elemento Terra existe MUITO mais do que simples realidade ou matéria. Por incrível que possa parecer existe ali bastante aprendizado. E, só para esclarecer, materializar não é obter sucesso (já abordei um pouco esse aspecto no ÀS de Ouros, semana passada). Portanto, não é porque estamos em Ouros que no final dá tudo certo e poderemos viver na inércia mental. E também não é porque podemos realizar que teremos sucesso. A tal felicidade que tanto se persegue não vem acoplada a pré-requisitos materiais ou coisas do gênero (senão a carta do Sol seria simbolizada por crianças brincando com o pote de ouro no final do arco-iris e não se tocando alegres, nuas, sem nenhum objeto de poder a não ser a reciprocidade de alma).
O 2 de Ouros fala de obstáculo. Claro, num naipe forte em percepção (percepção é o tato do sentir) com foco objetivo, direto e prático, naturalmente haverá uma dificuldade ou obstáculo (contendo seu devido aprendizado) para que se alcance a concretização. Afinal, não basta TER para literalmente CONSEGUIR. O obstáculo é uma forma de amadurecer a idéia, ensinar a negociação, testar a determinação e a capacidade de auto imposição que cada um possui perante uma chance de concretizar alguma coisa. Não falo aqui daquela teimosia cega em ficar malhando ferro frio. Falo da determinação em ouvir respostas atravessadas e nem por isso perder o foco principal, o objetivo inicial, não perdendo tempo com picuinhas ou preocupações corriqueiras, poupar energia, direcionar com firmeza aquilo que se SABE que pode dar certo. Repito: não é teimosia nem cegueira…é certeza interior.
Mais uma vez vemos que no elemento Terra há muito mais profundidade do que se prefere acreditar. E é nesse contexto que proponho uma semana de conscientização pessoal sobre a própria verdade, para que surja a certeza e com ela desperte a determinação necessária para que se supere dificuldades práticas em busca do foco principal: a conquista concreta.
Boa Semana a Todos ![]()
Abraços
Kelma
(Imagem: Contemplative Tarot)
Realize!
Entramos num novo ciclo - como a Carta 21 da semana passada previa - agora abordando também os Arcanos Menores e desmistificando um pouco as cartas que não são, ainda, devidamente utilizadas do Tarô. É fato que a popularidade e uso dos Arcanos Maiores (Mago, Papisa, Sol, dentre outros) é muito maior que dos Arcanos Menores (aquelas cartas que se parecem com as do baralho comum, com naipes, sem ilustrações). Será um desafio abordar tantas cartas no cotidiano e vida prática, mas, resolvi arriscar. Na sequência faremos todas as cartas de Ouros, seguidas de Espadas, Copas e finalizando com Paus.
Comecemos pelo começo: o Às de Ouros. Quem usa essa carta costuma ser suscinto, dizendo que é realização material e concretização. Vamos colocar um pouco mais de vida nesse papo. Avaliemos: o que significa essa realização? Dinheiro, trabalho? Imóveis? Conquistas?
Pois é. Interessantíssimo notar que realização é aquilo que acontece e era pretendido (qualquer coisa que se quer e porventura acontece). Portanto cabe considerar um aumento de salário como uma realização mas cabe também considerar um fim de relacionamento como realização também. Sejamos práticos (como bem enfatiza o naipe de ouros!) para admitir que o que se realiza é aquilo que se materializa. Qualquer coisa. A “categoria” é a gente que determina (bom, ruim, insípido ou duvidoso). Exemplo? Uma promoção que era objetivo há tempos: realização. Um casamento planejado: realização. Não podemos esquecer do sentimento que se concretiza (realização, porque não?) ou mesmo da raiva acumulada que se torna desabafo (realização também!).
Nessa Semana, que se abre com Arcanos Menores, vem a mensagem objetiva (como toda realização) que leva à materialização. Independente de como é recebida essa realização… ela não deixa de requerer o evento concreto. Use da vibração do Às de Ouros não só para ficar repetindo incansavelmente a necessidade de mais dinheiro (as pessoas não se cansam disso nunca?)ou use para praticar um sentimento ou ainda aproveite para entender de uma vez por todas alguma coisa que sua mente não aceitou assimilar até agora. Realize! Sair do padrão de espera pela realização que acontece fora de nós, como um milagre ou merecimento, é começar a participar ativamente da Vida lá fora. Não perca tempo apenas com o óbvio. Realize!
Boa Semana ![]()
Abraços
Kelma
(Imagem: Golden Boticelli Tarot)
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