Cartas na Mesa: Tarô Virtual

Artigos, programação e workshops do Site Tarô Virtual - www.kelmamazziero.com.br

Arquivo de Outubro de 2009

Dois é bom

O 2 de Copas é a carta que todos olham e sorriem de alívio. Isso porque mostra a parte favorável do número dois. No 2 de Ouros vimos que existe dificuldade mas, em nome da realização, as coisas são superadas e definidas. No 2 de Espadas percebemos que cada pessoa tem direito de ter sua opinião mas que isso acarreta conflito (pois gosto, opinião e ideal não se discute). E então vemos que no 2 de Copas isso muda. Muda porque não são duas pessoas tentando realizar a mesma coisa nem duas pessoas tentando convencer uma a outra de coisa alguma. São duas pessoas sentindo. Sem pensar, sem lutar, sem negociar. Simplesmente sentindo.
Não vou aqui falar sobre a noção superestimada de sentimento de que as pessoas costumam ter. Leia-se sentimento como qualquer sensação que brota internamente em alguém, espontânea e livremente, que da mesma forma pode ser compartilhada (ou cobrada, negada, rejeitada e daí por diante). Na carta dessa semana o sentimento flui. Nasce, brota, acontece e é manifestado. Ou seja, temos como prerrogativa a sensibilidade: ítem indispensável para que haja harmonia, entendimento, troca.
E por falar em troca vale à pena (também) lembrar que, a cada dia que passa, a troca entre as pessoas se altera. Fica cada vez mais difícil interagir, se relacionar, compartilhar, trocar… trocando a reciprocidade pelo domínio, poder, autoridade e competitividade afetiva. Quantas pessoas gastam horas de seu dia se preocupando com as quantidades de amor do outro? Pois é, fica cada vez mais forte aquele conceito arcaico (é paradoxo, eu sei, mas o tema antiquadérrimo está voltando à moda) de que o outro gosta mais de mim do que eu dele (ou o inverso). E aqui cabe o questionamento: qual foi a medição para se ter esse pensamento? Existem os casos também que acham (e acreditam piamente nisso) que só vão gostar de alguém e se doar quando tiverem certeza de que serão correspondidos (como se isso fosse possível). Ou o conhecido braço-de-ferro sentimental no qual uma pessoa nunca pode estar em desvantagem em relação à outra (seja no que sente, no que faz, na renda mensal, na ocupação, nas amizades e outros tantos elementos cotidianos). Bom, se eu fosse aqui dar a lista da competição sentimental que se trava ao invés de buscar a verdade da relação iria escrever páginas e mais páginas. E nem por isso resolveria. Pois, assim como o 2 de Copas, é preciso alguém que leia para o que se escreve fazer sentido e transformar qualquer coisa.
Sendo assim, essa é a semana da troca. Uma semana desafiadora. Mesmo parecendo lindo, romântico, fofo e perfeito…quando é preciso abrir mão da vantagem para se entregar à sinceridade afetiva a coisa aperta. Enquanto o indivíduo não perceber que dois é bom, que entregar-se é somar, que interagir é crescer e que trocar é fundamental não vai viver aquilo que tanto almeja no sentimento. Sem mansidão não haverá abertura; sem abertura não haverá entrega; sem entrega não existe troca e esse processo, além de exterminar com nossos verdadeiros prazeres, deixa cada vez mais rara a única qualidade que permite a existência da reciprocidade: a sensibilidade.

Boa Semana a Todos :)
Abraços
Kelma Mazziero

1 comentário »

Todo sentimento é amor?

Antes de começar a escrever sobre a nova fase (o novo naipe) vale comemorar a passagem intensa que tivemos, de semanas a fio, por Espadas. Espero que tenha servido para eliminar traumas ou fantasmas e não para causar mais medo de aspectos que fazem parte da vida.
Dito isso, vamos ao que interessa: hoje começa Copas! Naipe visado, comentado, desejado por representar o elemento água e ser associado a sentimento. E, claro, sentimento na maior parte das pessoas significa relacionamento. Certo? Não, errado. Sentimento não é indício de relação, nem de materialização afetiva, muito menos de felicidade. Até porque sentimos amor, é verdade, mas sentimos dor também. Portanto, sentimento é tudo aquilo que acontece dentro de nós, lá no fundo, no âmago, sem controle. Brota, acontece, desenvolve, se transforma como se tivesse vida própria (e de fato tem). Mas Copas não fala só disso. É o universo do sentir, da inspiração, da entrega. Como o amor hoje é supervalorizado quero variar um pouco o tema. Ou pelo menos falar do amor como um estado, um sentimento profundo, não apenas a sua prática no mundo real (até porque lidar com a realidade não é o forte do naipe). Fala-se muito de amor mundano e pouco do amor essencial. E, quem sabe, nas próximas semanas possamos mexer um pouco mais nisso, ao longo das cartas, reflexões, e - naturalmente- da experiência através dos Arcanos.
Às de Copas é nossa primeira lâmina. Uma taça transbordando água, normalmente linda e encantadora, que faz qualquer um olhar pra ela e dizer “Ah, vai dar tudo certo“. Mas tentemos olhar um pouco além da parte prática (já que Copas não é mesmo um naipe forte em praticidade). A forma como absorvemos um sentimento (seja ele alegre ou triste) deixa muito a desejar na maior parte das vezes. Basta perceber que aquilo que hoje faz sentido antigamente não fazia. O que hoje nos magoa não era motivo para tanto em outros tempos. E o que atualmente não importa já pode ter sido fundamental um dia. Não é engraçado?
Por isso a reflexão da semana fica por conta dessa “atualização” sentimental. O Às de Copas pode trazer a abundância de sentimentos. Frescos, novos, com sentido repaginado. Sim, o afeto se transforma. E é por isso que não devemos tentar enquadrar e delimitar a mente com percepções obsoletas. Hoje posso assistir a um filme que já vi diversas vezes e sentir algo completamente diferente. Porque hoje eu sinto diferente. Assim como uma mágoa que era profunda há anos atrás, atualmente, pode parecer tão volátil, tão sem sentido, tão inocente…ao mesmo tempo é possível perceber que haviam coisas importantes (e eram, de fato, importantes!) e que no momento presente não soam com o mesmo sentido, não têm aquele tom, nem o antigo encanto.
O tempo passa. A gente muda. Nosso sentimento recicla. Tudo pode ser diferente mesmo sendo, materialmente, a mesma coisa.
Boa Semana a todos ;)
Abraços
Kelma Mazziero

(Imagem: Universal Goddess Tarot)

7 comentários »

Nem tudo que é mal atrapalha

Durante anos de minha vida lutei para conquistar tudo o que achava que seria bom pra mim. Lutei para estudar piano (e fazer o curso até o fim), para ser boa dançarina, para passar de ano na escola, para entrar na faculdade, para sair de minha cidade e morar na capital, depois para fazer a Faculdade, para encontrar meu primeiro emprego, principalmente para conseguir me realizar na carreira que escolhi quando ainda era uma menina. Sendo assim, como toda luta que se preze, em tudo isso tive meus bons inimigos (e aqui entenda-se como inimigos as pessoas e também eu mesma em muitos momentos). Fiz muita coisa ao longo do tempo. Lutei muito para conseguir todas elas. Hoje me encontro numa situação totalmente diferente da qual imaginava naquele tempo. Sou casada, tenho filhos, trabalho com Tarô. Absolutamente fora da programação tão “sonhada e almejada” por mim. Mas só consegui chegar aqui depois de - claro - ter me colocado a prova no que achava ser o melhor pra mim (só podemos abrir mão do projeto quando percebemos que, ao realizá-lo, não parece ser nosso verdadeiro lugar).
Você deve estar pensando: e o que eu tenho a ver com tudo isso? De que me interessa saber essas coisas? O que deu na Kelma pra sair falando coisas pessoais no Blog, agora? Pois bem. Na verdade não interessam mesmo os fatos, mas sim, a mensagem. Estou aqui me usando como cobaia para dar exemplo de uma situação delicadíssima que acontece com todo mundo e não tem como falar dela se não me expondo (não faria isso com qualquer outra pessoa). Por isso, cá estou, tentando mostrar que nem tudo aquilo que é maldade (ou o que é ruim) atrapalha. Às vezes (até)ajuda. Ao longo de anos e anos pude ver que cada uma das pessoas chatas, impertinentes, reclamonas, cri-cris e maldosas que passaram pelo meu caminho tiveram uma importância incrível. Cada crítica que me fizeram, cada maldade, cada intriga, cada veneno…foram transformados em lição para que eu superasse tudo isso e me tornasse alguém melhor, mais forte, menos sensível. Para que eu me levasse menos a sério e considerasse como importante a jornada (e não apenas as pessoas que fazem parte dela ou o que acham dessa minha trajetória).
E onde fica o Rei de Espadas, afinal? Fica justamente aqui. Aquele que realiza pela luta, pelo esforço, a despeito de outros, de acontecimentos, de dificuldades. É carta difícil porque não mede muito limite (ou seja, se ele tiver que fazer nem pensa muito, vai e faz!). Mas em contrapartida é resistente à beça. E é por isso que escrevi aqui parte de meu caminho. Nele tive pessoas que gastaram um tempo imenso procurando defeitos em mim. Defeitos que (hoje) defino como relevantes (alguns) e irrelevantes(outros tantos). Mas que, na época pesaram, doeram, me colocaram de frente para mim mesma e para a guerra que se trava para lutar por qualquer coisa: seja dinheiro, posição, trabalho, amor, amizade. Qualquer coisa. Já vi gente mentir para ter uma amiga minha menos próxima de mim. Encarei complô em trabalho para perder promoção. Ouvi absurdos de pessoas que conviviam comigo sobre minha vida pessoal por não aguentarem meu jeito de lidar com as situações. Acreditei ser muita coisa que não era pra que outras pessoas conseguissem ser qualquer coisa por poucos minutos. Mas nada disso foi em vão. Nada. Tudo me serviu. Não para alimentar arrogância mas para me mostrar que aqueles pontos, todos, eram frágeis e precisavam ser fortalecidos. Inclusive a necessidade que eu tinha de ser aceita, que me derrubou por anos, até que eu pudesse entender que não dá pra depender de ninguém quando se trata de amor-próprio.
Por isso, na semana do Rei de Espadas, deixo a mensagem para todos da luta, sobrevivência, resistência e realização. Cada parte ruim é importante numa trajetória em busca de algo muito maior do que aquilo que se vive no momento. Para saber o que temos pela frente é preciso ser resistente, superar as dificuldades, fortalecer fraquezas, aceitar as falhas e principalmente não achar que isso que se vive hoje é o melhor que poderia ser feito. Sempre poderá haver melhoria, sempre haverá crescimento, sempre haverá coisa boa no caminho. Basta não ter medo do (que parece ser) ruim.
Boa Semana todos
Abraços ;)
Kelma

8 comentários »

Hora de lavar a alma

E chegou a tão temida hora. A hora e a vez da Rainha de Espadas. Quem estuda Tarô e gosta da tarologia bem sabe que essa carta é conhecida por seu conteúdo vingativo, cruel, maldoso, ressentido. Uma personagem tida como amarga, mal-amada (detesto esse termo!) e perigosa. A personificação da mulher adulta que viveu coisas as quais considerava injustas consigo mesma. Em se tratando do naipe de Espadas o que não falta nas cartas é pensamento e idéias definidas. Até porque o elemento ar aqui produz imaginação, cria conceitos, reage, rumina a mente que tem idéias.
É lógico que qualquer pessoa, em sã consciência, abomina esses atributos e diz que é uma carta ruim. Julgando, acusando, condenando. Isso é uma forma de, subjetivamente, mostrar que não há identificação com padrões tão insensíveis. Afinal, criticar algo significa ser diferente daquilo. Porém, nesse caso, trata-se de estratégia emocional barata (na maioria das vezes). Explico: todo mundo enxerga a Rainha como alguém mal e muito diferente -portanto- de si mesmo. Mas na verdade ela faz parte do pacote de qualquer pessoa normal. Sabe quando a gente compra um produto e leva outro junto na mesma embalagem? Está escrito no produto: “As partes não podem ser vendidas separadamente”. Quando a gente nasce já vem com a Rainha de Espadas acoplada, não dá pra separar ou negociar isso!
Quando a Rainha é alguém que convivemos fica fácil odiá-la. Ela é manipuladora, estratégica, perigosa, ardilosa. Mas nos momentos em que estamos saturados por tanta chatice e mediocridade alheia, tendo que lidar com gente preguiçosa e ociosa, engolindo sapos diariamente, aturando um cotidiano exaustivo, maçante, desigual e injusto… É fácil assumir a personagem (ou seria persona?) da Rainha de Espadas. Eu costumo dizer que no momento no qual surge essa carta é a hora de lavar a alma. Depois de ser humilhado, desvalorizado, ignorado, incomodado, desrespeitado… Quem agüentaria “oferecer a outra face”?
É aí que essa parte nossa (a que veio junto com o pacote!) entra em ação. Pode ser aquele momento no qual a (o) seu superior insuportável é demitida (o) por não saber conviver e trabalhar em equipe. Ou, ainda, a chance que se esperava de dizer tudo o que estava entalado quando um colega vê seu mundo desabar e te pergunta o que foi que ele fez de tão errado assim… Até aquela figura do colégio que te azucrinava e hoje precisa de você para resolver algum problema… Fala sério, é difícil controlar o sorrisinho no canto da boca.
Por isso, essa semana, não basta simplesmente pensar. É semana de admitir. Admitir que ninguém é de ferro, que todo mundo tem direito de querer desabafar, reclamar, xingar, esbravejar porque afinal de contas se sente soterrado de coisa errada e a maioria das vezes tenta ser educado e passar por cima porque seria o correto a fazer. Isso não significa perder o critério (porque por mais que a Rainha de Espadas seja mão-pesada ela nunca perde a classe). Significa também dar valor à sua justiça para que a noção de “certo-errado”, “bem-mal” nos assole um pouco menos. Significa, ainda, dar importância aquilo que é realmente importante e parar de se incomodar com qualquer bobagem. Divertir-se com essa vontade de chutar tudo pro alto e revidar na mesma moeda é da natureza humana, ou ainda, de qualquer pessoa saudável. Afinal, quem é que não entende a ironia quando lê a célebre frase: “Quando sou boa, sou ótima. Quando sou má sou melhor ainda”…?

Boa semana a todos :P
Kelma Mazziero
(Imagem: Gilded Tarot)

3 comentários »

Próxima Página »